Há viagens que se medem em quilômetros e outras que se medem em séculos. Foi o que um grupo de turistas de Porto Alegre fez no domingo, 11 de outubro, foi das duas espécies. Conduzidos pelas guias de turismo Juliana Meller e Micheli (Galápagos Tur), aproveitando o clima festivo da Promove Campina, os visitantes chegaram a Campina das Missões em busca de algo raro: conhecer de perto o legado histórico, cultural e religioso deixado pelos imigrantes russos e seus descendentes na cidade reconhecida como “Berço Estadual da Cultura Russa” — e que é também, com igual orgulho, terra de alemães.
Café colonial e guarda-chuvas ao vento
Como toda boa história do interior, esta começou ao redor de uma mesa farta: o café da manhã na Chácara Ludwig. Após passeio na Chácara, já com a curiosidade aguçada, o grupo seguiu para o centro. Passeou sob a rua coberta, deixou-se colorir pela rua dos guarda-chuvas — um teto suspenso de cores dançando ao vento, irresistível para as fotografias — e saboreou a calma da Praça da Matriz, onde o tempo parece andar sem pressa.
Pão e sal à moda eslava
Às 10h30, o roteiro tomou o rumo da Paca Sul. Diante da Igreja Ortodoxa, os visitantes foram recebidos como manda a mais antiga tradição russa: com pão e sal, símbolos de fartura e hospitalidade, oferecidos pelas mãos das rainhas Raquel, do Grupo Troyka, e Larissa, da Cultura Russa. Na tradição russa, quem é recebido assim deixa de ser forasteiro e passa a ser hóspede oficial e de honra.
Em seguida, o cônsul honorário da Rússia no Rio Grande do Sul, Jacinto A. Zabolotsky, conduziu o grupo numa verdadeira viagem no tempo, desfiando a trajetória da comunidade desde os seus primeiros passos, em 1909 — uma história de trabalho, fé e saudade de famílias que vieram de longe para recomeçar a vida em terras campinenses e regionais.
Uma só luz feita de muitas chamas
Ao entrarem no templo, fundado em 1912, cada visitante recebeu uma vela sagrada de cera. Explicado o significado do ritual, fez-se silêncio. Um a um, os turistas confiaram em pensamento seu pedido a Nosso Senhor, acenderam a vela e a depositaram no velário, onde as pequenas chamas se juntaram numa só luz, trêmula e serena. Ali também ouviram a história da igreja e aprenderam a fazer o sinal da cruz à maneira ortodoxa — gesto que muitos repetiram com o cuidado atento de quem aprende algo precioso.
Giros, cores e tamareiras
Do recolhimento à alegria, bastaram alguns passos. No salão paroquial ortodoxo, o Grupo Troyka tomou conta da cena com as danças vibrantes do folclore russo: giros, cores e compassos que contagiaram a plateia. Logo ao lado, uma surpresa: o primeiro jardim bíblico cultural do Rio Grande do Sul e do Sul do Brasil. Caminhando entre tamareiras, oliveiras e outras plantas que evocam as paisagens das Sagradas Escrituras, os visitantes tiveram a sensação de folhear a Bíblia ao ar livre.
No cemitério ortodoxo, a grande cruz-mestra de mármore guardava uma lição de fé esculpida em pedra: a lança, que recorda o sofrimento de Jesus na cruz, e a escada, que simboliza a subida aos céus de quem ali repousa.
A outra metade da história
No caminho de volta, ainda houve tempo para visitar a Praça São Vladimir e a capela ortodoxa, e para percorrer a rua alemã, lembrança viva da outra herança que também ajudou a construir Campina. Depois do almoço, foi a vez do grupo alemão subir ao palco — prova de que, por aqui, russos e alemães sabem dividir com alegria o mesmo palco e a mesma mesa. O restante da tarde foi aproveitado na animada programação da feira Promove Campina.
Ao entardecer, a despedida veio acompanhada de uma promessa: voltar em breve. Encantados, os visitantes partiram levando na bagagem o sabor do pão e sal, o brilho das velas e o eco das danças. Esta já é a segunda excursão de turistas de Porto Alegre a desembarcar na cidade — sinal de que Campina das Missões, com seu jeito único de ser, vem conquistando um lugar especial no mapa do turismo gaúcho. Ou, como diriam os anfitriões ao pé da porta: Do svidánia — até a próxima!








