Os 320 anos da Redução Jesuítica Guarani de Santo Ângelo

Os 320 anos da Redução Jesuítica Guarani de Santo Ângelo

*José Roberto de Oliveira

Em pleno ano dos 400 anos das Missões estamos comemorando nesta semana em 2026 os 320 anos da fundação da Redução de Santo Ângelo. O ato fundacional pelo padre Húngaro Diogo de Haze é de 12 de agosto de 1706.

O Grupo de guaranis cristãos que veio formar o novo povoado saiu da Redução de Concepción, hoje Argentina, chegaram onde é o município de Entre-Ijuís, não conseguindo passar o Ijuí por uma cheia, começaram os trabalhos no lado esquerdo do rio, em seguida iniciaram ações no novo território onde hoje está a sede de Santo Ângelo, em 1707 mudaram-se definitivamente.

As famílias de Concepción tinham entrado no cristianismo em 1619, a redução havia sido fundada por Roque Gonzáles (agora Santo da Igreja), a primeira da Bacia do rio Uruguai e em 1706 os guaranis daquela fundação já tinha 87 anos de igreja e de qualificação da mão de obra, estavam entre a quinta e sexta geração de cristãos, ou seja, estavam muito preparados em todas as artes e ofícios, cristãos de fala guarani já de muito tempo.

Com gente com tantos anos de igreja e com grande qualificação da mão de obra, trabalhavam nas mais de 40 oficinas e industrias que havia em Santo Ângelo, lembrando que a redução foi a maior produtora e exportadora de erva-mate mundial daquele período, também grande produtora de algodão, instrumentos musicais, esculturas em madeira, couros, farinhas dos moinhos junto ao arroio Itaquarinchim e tantas outras produções para uso local e exportação.

Do ponto de vista religioso podemos pensar que viviam do modo como Cristo nos comunicou através de seu Evangelho em termos do modo como devemos proceder perante a comunidade e nosso viver diário, veremos que nas Missões se viveu plenamente seus ensinamentos, com base no Evangelho ensinado em língua guarani, como era a comunicação diária.

No individual viviam a fé e a conversão contínua, com prática do amor ao próximo, divisão dos bens que produziam tanto no Amambaé (produção familiar) como no Tupambaé (produção coletiva). Havia integridade e coerência moral, recusando o egoísmo.

No tocante a comunidade viviam a comunhão e acolhimento aos vulneráveis, como no exemplo do Cotiguaçu, onde cuidavam das viúvas, órfãos e necessitados, sempre em ação social e defesa dos vulneráveis, como é o modo guarani de ser e que coadunava perfeitamente com as ideias crísticas.

O ensino e a qualificação da mãos de obra era elemento fundamental para o desenvolvimento da sociedade, bem como o culto e celebração diária.

Muitas vezes ainda pensamos em indígenas do modo amazônico, esquecendo que aqui temos invernos importantes. Vestiam no verão roupa de algodão e no inverno ponchos de lã de ovelha. A alimentação era plena pelo número de vacas a disposição, além dos tradicionais produtos da lavoura guarani como mandioca, batata doce, milho, amendoim e os grãos trazidos pelos padres da Europa e que se adaptaram fantasticamente na terra vermelha missioneira.

Não podemos esquecer que daqueles descendentes somos nós o Mundo Gaúcho de hoje e que pela obviedade dos traços estamos formando a base das Missões e do Rio Grande do Sul, os espanhóis, portugueses, alemães, italianos e tantas outras etnias posteriores se juntaram neste cadinho cultural e formam o povo missioneiro de hoje.

Aos Guaranis que não se cristianizaram e formam as Aldeias da região devemos toda nossa atenção e políticas públicas, pois são irmãos ancestrais dos formadores dessa história.

*Pesquisador e palestrante sobre as Missões.

Notícias Relacionadas