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Já escrevi três crônicas aqui de Brasília, onde estou a trabalho e nas horas de folga, a passeio. Já lhes falei em outro texto, que isto aqui tem uma combinação fenomenal para atrair e agradar as pessoas que aqui chegam. Difícil não se impressionar com a arquitetura, o urbanismo, o paisagismo, a exuberância do verde, a preservação da água. As águas do Lago Paranoá, construído artificialmente, são absolutamente potáveis, despoluídas. Conhecer a história da construção da nossa capital, contada por um morador daqui, é sentir o orgulho dessa gente. Mesmo que sessenta anos já se passaram desde sua inauguração. Hoje é domingo e voltei de um passeio no Lago, onde até banho tomei. Voltei descansado, alma e corpo lavados.

Então, ao texto. Estou lembrando de um tio, o maior e dos únicos amigos que tive. Eu fui tão amigo dele que se dependesse de mim, mandaria erigir uma estátua dele numa praça de Camaquã. Mas sei que ele não iria querer. Diria: Tirem já isso daí. As pombas virão cagar na minha cabeça! Esse era o tio Protásio. Tínhamos uma relação como se fossemos pai e filho. Respeito, confiança, paciência, muito humor. Tomávamos nossa cerveja, ríamos, lamentávamos nossas derrotas, discutíamos formas de superar obstáculos. Amigos, na essência do termo. Foi meu chão.

Ele foi o farol que orientou minha vida, tão confusa naquela época. Ele representava um cara no seu posto de observação da história. Era nosso farol. Ateu. Dizia que mesmo, ás vezes, rezando para Santo Arnulfo, protetor dos cervejeiros, não acreditava muito que as orações chegassem lá em cima, pois estava sem um níquel de crédito com as autoridades celestiais. Era uma criatura sentimental até a espinha. Chorava fácil. Ria com a mesma facilidade. Ajudava como podia. Visitava acampamentos indígenas e na oportunidade levava roupas, calçados, alimentação. Se indignava com a mesma intensidade. Manifestava seu inconformismo com a mediocridade dos governantes, com o vácuo de inteligência. Observando os esgotos que corriam a céu aberto na frente da sua casa, entrava em depressão, ficava totalmente abatido.

Se emocionava com as próprias histórias, atraía quem estava por perto, preservava o espírito de guri. Lamentava viver num país em que quem segue as leis, paga imposto, é considerado babaca. Hoje eu estava á frente do prédio do STF. Lembrei do meu tio. Ah se ele ficasse sabendo da lista de compras que recentemente circulou na imprensa. Caviar, espumantes, wisky com 12, 15, 18 anos, bacalhau Gomes de Sá, medalhões de lagosta para serem servidos ao molho de manteiga queimada, vinhos brancos feitos com uvas tipo Chardonnay, com no mínimo quatro premiações internacionais, camarões y otras cositas más. Símbolo da corrosão moral em que vivemos. Muitas autoridades são artífices da grande anarquia em que vivemos.

Mas meu tio que já era magricela como uma agulha, ossudo, alto, foi ficando com o coro cada vez mais perto dos ossos, seus olhos afundaram e ficaram opacos. Perguntei para meu filho médico: De que morreu, afinal, o tio Protásio? Resposta do Fernando: Morreu de tanto viver. Tinha 89 anos.

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